
ESPECIALIDADES DA REGUA
Além das espécies endêmicas que tornam a Mata Atlântica tão especial, há várias aves que podem ser consideradas especialidades da REGUA — espécies que talvez sejam mais fáceis de encontrar aqui do que em qualquer outro lugar.
Chibante
Laniisoma elegans
Também conhecida como assobiador, é provavelmente a ave mais famosa da REGUA. A floresta de baixada da reserva é, possivelmente, o local mais confiável do mundo para observar essa ave rara e pouco vista. Restrita a florestas primárias e secundárias bem estabelecidas, esta espécie ocorre apenas na Mata Atlântica do sudeste do Brasil e, embora tenha uma população representativa nesta área, é classificada como Vulnerável pela IUCN (populações menores, compostas por três subespécies ainda mais raras, ocorrem ao longo dos Andes). Acredita-se que os adultos passem o inverno austral em altitudes mais baixas, subindo a serra na época reprodutiva. Machos territoriais são frequentemente avistados na Trilha Vermelha na primavera e no início do verão. Nos meses de inverno, os locais mais confiáveis são o trecho inicial da Trilha da Cascata (entre os marcos 400 e 2000) e a Trilha roxa ou São José (especialmente próximo à torre de observação), onde indivíduos imaturos costumam ser encontrados.

Patinho-de-asa-castanha
Platyrinchus leucoryphus
Outro endêmico da Mata Atlântica, também classificado como Vulnerável, é o patinho-de-asa-castanha, quase totalmente restrito ao sudeste do Brasil, mas também encontrado no leste do Paraguai e ocasionalmente no extremo nordeste da Argentina. Ele ocorre em baixíssima densidade em florestas primárias — um habitat extremamente raro — e apenas ocasionalmente em florestas secundárias bem estabelecidas. Desde 2007, indivíduos são avistados regularmente na REGUA, onde dois casais já foram anilhados. As Trilhas Vermelha, Cinza e Cascata são os melhores locais para procurá-lo, especialmente de manhã cedo durante a época reprodutiva.

Saí-de-pernas-pretas
Dacnis nigripes
A Saí-de-pernas-pretas, endêmica da Mata Atlântica é classificada como Quase Ameaçada, é altamente desejada por observadores. Ridgely e Tudor a descreveram em 1989 como “raramente vista”. Historicamente, a REGUA registrava poucos avistamentos, sendo o Parque Estadual Intervales, em São Paulo, o melhor local para observá-la. Mas, em março de 2009, um casal com filhotes foi encontrado nas áreas reflorestadas dos alagados da REGUA, e desde então o número de indivíduos presentes durante o inverno tem aumentado. Entre janeiro e maio é o melhor período, quando os bandos também podem ser vistos no jardim da pousada. Fora dessa época, podem ser encontradas nas trilhas, especialmente em árvores floridas, sugerindo que alguns indivíduos se reproduzam na REGUA.

Narcejão
Gallinago undulata
O narcejão é uma ave de hábitos noturnos e discreta, o que dificulta muito sua observação. Não é considerada globalmente ameaçada, embora sofra pressão pela caça e perda de habitat. Antes da restauração dos alagados da REGUA, era relativamente comum vê-la ao entardecer, geralmente em voo, e escutar sua vocalização da pousada. Porém, nosso guia Adilei Carvalho da Cunha passou inúmeras horas explorando pastagens próximas, no período da noite e identificou áreas de alimentação bastante confiáveis. Para conseguir ver esta espécie, é necessário participar da nossa excursão noturna — que frequentemente oferece observações incríveis de aves no chão, a poucos metros de distância.

Choquinha-pequena
Myrmotherula minor
A choquinha-pequena, restrita à Mata Atlântica brasileira (registros antigos do Peru já não são considerados válidos), é uma ave muito rara e de distribuição diminuta. Ocorre em florestas de baixada, geralmente primárias ou secundárias bem estabelecidas, até 300 m de altitude, e ocasionalmente podem ser vistas mais alto. Devido à forte perda de habitat, é considerada Vulnerável. Na REGUA, é mais frequentemente encontrada na Trilha Vermelha (especialmente próximo ao marco 1700), na Trilha Cinza e na Trilha da Cascata (verde), muitas vezes em bandos mistos.

Cambada-de-chaves
Tangara brasiliensis
A cambada-de-chaves era frequentemente considerada a mesma espécie que a Tangara mexicana, da Amazônia, mas foi separada recentemente pela American Ornithologists’ Union. Ela habita áreas semiabertas, bordas de mata, clareiras e florestas secundárias bem estabelecidas. Bons locais para observá-la incluem os primeiros 300 metros da Trilha da Cascata (especialmente ao redor da Casa Pesquisa, no início da trilha, e também nas árvores próximas à antiga serraria que dá acesso à trilha).

Urutau-pardo
Nyctibius aethereus
Esta espécie de grande porte, com cauda proporcionalmente longa, é uma espécie raramente observada e apresenta uma distribuição descontínua e fragmentada. Ocorre de forma bastante localizada no oeste da Colômbia, ao longo de grande parte da Amazônia — estendendo-se ao norte até o leste da Venezuela e as Guianas — e reaparece na Mata Atlântica, sendo que em cada uma dessas regiões existe uma subespécie distinta. A espécie está associada a baixadas e às encostas de morros, ocupando ambientes florestais densos e úmidos. De hábitos noturnos, repousa durante o dia no alto do dossel, frequentemente a mais de 20 metros do solo. Ocasionalmente, pode ser encontrada pousada em alturas mais baixas, como em mourões de cerca em áreas abertas.

Gavião-pombo-pequeno
Amadonastur lacernulatus
Gavião pequeno de plumagem preta e branca, endêmico da Mata Atlântica de baixada da parte leste do Brasil. Assemelha-se ao gavião-pombo-grande, mas facilmente distinguido pelo porte menor e pela faixa preta na extremidade da cauda. Vive em áreas florestadas, onde é mais frequentemente observado pousado em níveis intermediários no interior da mata. Na região da Serra dos Órgãos, costuma ser registrado em altitudes mais baixas, sobretudo em vales e encostas cobertas por floresta.

Furriel ou Canário-do-mato
Caryothraustes canadensis
Geralmente observado em bandos pequenos a médios formados por indivíduos da mesma espécie — que podem constituir o núcleo de grupos mistos maiores — o Furriel é uma espécie facilmente reconhecível e, muitas vezes, relativamente comum. Apresenta coloração predominantemente amarelo-esverdeada nas partes inferiores e na cabeça, bico robusto de base larga e geralmente claro, máscara preta na região frontal e dorso, asas e cauda em tom verde-oliva. Embora costume permanecer no sub-bosque superior, chama atenção por seus chamados altos, vibrantes e característicos. Habita florestas de baixada e encostas inferiores, sendo mais frequentemente observado nas bordas da mata. Sua distribuição estende-se do leste do Brasil (do Ceará ao Rio de Janeiro), seguindo para o norte através do Panamá até o norte da Amazônia.

Topetinho-vermelho
Lophornis magnificus
Pequeno beija-flor de coloração predominantemente verde, o macho destaca-se pela crista alaranjada e pelas penas laterais da nuca em forma de leque, enquanto a fêmea apresenta plumagem verde, ventre branco e garganta em tom canela. Ambos os sexos exibem uma faixa branca bem definida na parte superior da cauda. Geralmente solitária, a espécie ocupa clareiras florestais, plantações jovens e jardins arborizados, onde visita flores, demonstrando marcada preferência por Lantana camara. Ocasionalmente, também pode frequentar bebedouros para beija-flores. Ocorre do nordeste do Brasil (Pernambuco) até o Rio Grande do Sul, realizando provavelmente movimentos sazonais associados aos períodos de floração e à época reprodutiva.

Caburé-miudinho
Glaucidium minutissimum
Também conhecido como caburé-brasileiro, em referência à sua distribuição amplamente endêmica, o caburé-miudinho pode ser facilmente distinguido do caburé (Glaucidium brasilianum) pela cauda mais curta e pela presença de manchas no topo da cabeça, em vez de faixas estreitas. Dentro de sua área de ocorrência, sobrepõe-se geograficamente apenas ao amplamente distribuído caburé. Em contraste, o caburé-miudinho prefere a Mata Atlântica perenifólia e as bordas de floresta, ocorrendo em florestas de baixada de até cerca de 1.000 metros de altitude. A espécie é geralmente encontrada aos pares, e sua distribuição estende-se do leste do Brasil (Bahia) até o Paraguai.

Arapapá
Cochlearius cochlearius
Semelhante em aparência ao socó-dorminhoco, mas facilmente distinguível pelo bico extremamente largo e achatado, esta espécie é geralmente solitária e de comportamento discreto, permanecendo oculta em meio à vegetação densa. Sua atividade é predominantemente noturna e crepuscular. A nidificação pode ocorrer de forma isolada ou em colônias mistas, ao lado de outras garças e íbis. Pouco comum na região da Serra dos Órgãos, está restrita a florestas inundáveis de terras baixas, sendo encontrada tanto no interior de áreas florestadas quanto em lagoas, lagos e rios adjacentes. Ao caminhar por águas rasas, utiliza seu bico característico para capturar anfíbios, pequenos peixes, crustáceos, insetos e outros pequenos vertebrados.


























